sábado, 17 de janeiro de 2009






O JOGO DA VIDA
J. Norinaldo


Daniele nasceu em berço de ouro, filha de uma abastada e respeitada família do Rio Grande do Sul.
Seu pai, cujo nome era Paulo Márcio Zennder, empresário e fazendeiro, homem muito correto, principalmente no que concerne a família, sempre fora um exemplo, pois não bebia; fumava cachimbo, o que lhe dava um ar imponente. Casara-se cedo, com dezenove anos, com dona Alice, mulher bela, e também de ótima família. Tiveram quatro filhos que eram o maior orgulho dos pais: três meninos e uma menina. Esta era admirada desde muito cedo pela sua beleza.
Daniele herdara a beleza dos pais somada a de algum ancestral. Era loira e de lindos olhos verdes. Ela fora a mais mimada por todos, pois, além de caçula era a única filha do casal. Os pais, assim como todos os parentes tinham verdadeira adoração pela menina que crescia, e ficava cada vez mais bela, dona de um corpo escultural.
Esta bela moça tinha tudo que um ser humano precisa para ser feliz: uma linda família, dinheiro e muito amor. Mas, tudo isto não foi suficiente, pois quando completou catorze anos, seus familiares começaram a notar que algo não ia bem com ela. Daniele começou a demonstrar uma irritação constante; qualquer coisa era motivo para ela sair aos gritos.
Os pais conversavam muito com Daniele, mas não conseguiam atinar com a raiz do problema que afligia sua querida filhinha; decidiram levá-la a um analista. Foi aí que Daniele virou fera.
_Ah! Então pensam que sou louca? Não vou mesmo, nem pensar!
Foi então que perceberam que o problema era enorme, pois Daniele também estava mal nos estudos quando foram procurados pelos mestres da moça. Tomaram o maior
susto, inclusive com o número de faltas dela à escola.
Apavorado, Paulo procurou um psiquiatra, amigo seu, lhe relatando o que estava acontecendo com sua filha. Seu amigo baixou a cabeça após ouvir tudo, depois olhou para o amigo coçando o queixo, e disse:
_Deus queira que eu esteja errado, amigo! Mas, pelo que acaba de me dizer, só me leva a pensar numa coisa, e isto é tão grave e triste que jamais gostaria de ter que lhe dizer. Notou que Paulo ficara pálido.
_Como assim? Vamos, diga! Em que está pensando? Estou preparado para ouvir.
_Como disse antes, amigo, Deus queira que me engane, mas tudo leva a crer que seja droga.
Aquilo soou como uma sentença de morte aos ouvidos do homem Este agora muito mais pálido, gaguejou:
_Não pode ser, por Deus, não pode ser isto! Pode ser qualquer outra coisa, mas isto não! Ela nunca teve motivos para isto, você nos conhece muito bem, pode ser testemunha, não, não e não. Isto eu não aceito, e seus olhos já estavam cheios de lágrimas.
Dr. Martins também balançava a cabeça tristemente quando disse:
_Calma, amigo, não estou lhe dando certeza de nada, tenha calma!
_ E como vou tirar esta terrível dúvida do meu coração, agora que a plantou aqui? E bateu forte contra o peito.
_Amigo, descobrir é fácil, nisto eu posso ajudá-lo, porém descobrir nem sempre é a solução, mas conte comigo para o que for preciso. Sabe que pode contar comigo. Conversaram mais um bom tempo, mas quando Paulo saiu da casa do amigo não conseguia coordenar as idéias; sua cabeça era um verdadeiro turbilhão. Que faria? Conversaria com Dani, ou esperaria pra ter certeza, certeza essa que jamais queria ter?
Chegou em casa já era noite. Chovia. Sua filha não estava em casa. Dona Alice notou que seu marido não estava bem, e quis saber o que estava acontecendo. Foram para o quarto, e Paulo lhe reportou a conversa que tivera com o amigo. Dona Alice levando a mão à boca num gesto de desespero, começou a chorar dizendo:
_ Meu Deus! Não deixai que minhas suspeitas se confirmem. Lhe imploro, Meu Pai ! Não, minha filhinha, não! E se atirou sobre o marido aos prantos.
Também chorando, Paulo disse:
_Calma, querida! Ainda não temos certeza de nada. Deus é bom, não vai deixar que esta maldição entre em nossa casa. Porém, já não tinha mais tanta certeza.
Duas horas depois chegava Daniele. Quando a porta se abriu e o pai viu a filha entrar, seu coração disparou como se tivesse tomado o maior susto; ela se vestia de preto, se vestia mal, ele nunca notara, sempre achara que aquilo era a moda dos jovens. Agora via que não, sua filha parecia um lixo.
Ela entrou, cumprimentou os pais com um oi, e subiu correndo para o seu quarto. Se no meio da escada tivesse olhado para trás, teria visto seu pai levar as mãos à cabeça e uma pequena poça se formar no tapete, nunca se vira aquele homem chorando daquela maneira.
Não foi preciso muito esforço para se ter a pior das notícias até então na vida daquela família acostumada a felicidade. Um dia, Daniele não estando em casa, dona Alice foi ao seu quarto, e no armário do banheiro encontrou um pequeno pacote. Ainda pensou em colocá-lo no vaso e dar descarga, não queria ver aquilo, mas abriu e constatou um pó branco. Terrível descoberta, suas pernas se dobraram, e ela caiu de joelhos começando a bater com a cabeça no assoalho .Depois de um certo tempo ligou para o marido e este veio correndo quando ela então lhe mostrou a triste descoberta. Aquele homem que sempre fora considerado como uma forte pilastra do mais puro mármore desabou, parecia muito mais velho; os dois abraçados chorando como crianças chamaram a atenção dos criados que apavorados ligaram para os filhos. Estes vieram imediatamente, e não entendiam aquela cena, principalmente porque perguntavam e ninguém lhes dava uma resposta. Quando por fim tiveram a resposta quase caíram todos ao chão.
_Não é possível diziam quase num triste coro. Temos que agir imediatamente. Talvez esteja só começando, vamos ser práticos, chorar não vai levar a nada_ disse o mais velho, que como o pai também se chamava Paulo.
Nesta noite, Daniele teve sua primeira conversa com a família a respeito de drogas. Foi uma conferência muito triste. Ela jurou que experimentara há pouco tempo, que não era viciada, prometeu não voltar a usar vendo todos ali chorando, pareceu se compadecer da dor da família que amava e muito.
Rafael, seu irmão mais jovem, não se convenceu muito, e resolveu investigar a vida da irmã. Descobriu que ela já estava na vida há muito tempo e suas amizades eram péssimas, quase ninguém do círculo de amizade da família, coisa que também ninguém nunca notara.
Depois dessa descoberta a vida da família virou um verdadeiro inferno. A moça se vendo constrangida, sabendo que já não acreditavam nela, tornou-se mais revoltada e pouco aparecia em casa. Os pais começaram a sentir o chão lhe fugir dos pés quando tiveram em sua porta, traficantes cobrando dívidas da filha.
O irmão mais velho, o único casado, tinha uma filhinha com quatro anos. A criança adorava Daniele, e começou a sentir a falta da moça que não a visitava mais. Daniele já não era tão bela, tinha enormes olheiras roxas, cada vez mais se vestia pior. Sempre de negro.
Este sofrimento ainda duraria três anos; os pais da moça pareciam muito mais velhos agora, seus irmãos eram pessoas tristes.
Um belo dia, Daniele andava pelas ruas sem rumo, quando notou um homem muito velho que cuidava de uma plantação de morangos. Tinha uma parte do rosto tapado com uma espécie de máscara, ela parou ,e ficou olhando para o homem. Este assim que a viu lhe dirigiu um sorriso, em sua face aparecia apenas um olho e ela fez uma careta. O que teria acontecido àquele homem que escondia a metade do rosto?_ pensou.
_Olá mocinha, gosta de morangos? São os melhores, sem veneno, uma doçura, venha! Vou colher alguns para você! Mas a moça não tirava os olhos do rosto do homem.
_Que houve com o seu rosto_ perguntou ela.
Mais um sorriso, agora triste, o homem levou a mão ao tampão e disse:
_Filha, isto é um câncer que está me levando aos poucos, não reclamo, já vivi muito, mas me dói muito, principalmente porque nunca tive vícios. Falava com certa dificuldade, se encostara ao cabo da velha enxada e olhava com carinho para ela. Tenho oitenta e sete anos, filha, já vivi o bastante.
_Mas, se sabe que está morrendo porque continua trabalhando? Não vale a pena, porque não vai descansar?
_Para mostrar a Deus que dou muito valor à vida que ele me deu. Quero usufruir dela até quando não der mais, filha. É assim que demonstramos nosso agradecimento a Ele pela dádiva da vida. Continuo trabalhando porque sei que garotas bonitas e saudáveis como você comerão os morangos que eu plantei e se lembrarão de mim com carinho, entende?
Pela primeira vez uma conversa calou fundo na mente daquela moça. Ela não segurou as lágrimas e disse:
_Eu não sou saudável, nem bonita. Eu uso drogas! Estou matando minha família, pois eu já estou morta. Ajude-me, pelo amor de Deus! O senhor pode e sabe como. O senhor, um homem velho e com câncer, sabe que não demorará a morrer está aí a cuidar dos seus morangos, enquanto eu que tive tudo que alguém sonha ter, destruí a minha vida. Deixe que eu morra em seu lugar, fique aqui e cuidando dos seus morangos. O senhor merece mais do eu.
O homem a olhou com muita tristeza e abriu os magros braços para recebê-la. Daniele dera muita sorte em passar por ali. Gedeão levou a moça pra dentro de sua humilde casa e ali conversaram durante muito tempo. Ele preparou uma refeição muito simples, arroz feijão e ovos fritos, ela que quase nunca sentia fome, comeu com o prato no colo enquanto ouvia as palavras de Gedeão.
E o tempo foi passando. Como já era noite, o velho preparou uma cama muito simples, porém tudo muito limpo. E a moça deitou-se. Fazia horas que não se drogava, não conseguiria dormir, pensou, mas não queria decepcionar aquele bom homem.
Deitou-se e ouviu o velho lhe dizer:
_Durma com Deus, minha filha! Amanhã conversaremos mais.
Daniele ao contrário do que previa dormiu logo, um sono pesado, o velho ficou ali do seu lado, só tempos depois dormiu pensando na bela jovem.
Daniele teve um sonho, ou delírio, que mudaria totalmente a sua vida.
De repente estava ela em uma espécie de programa de televisão, só que bem diferente: havia duas platéias, uma de pessoas bonitas, jovens e adultos bem vestidos, pele linda. Do outro lado gente jovem e feia, com horríveis olheiras, todos vestidos de preto, alguns sujos e rasgados.
De repente apareceu o apresentador.
_Senhoras e senhores, vai começar o jogo. Hoje temos aqui, Daniele Zennder, que irá defender sua família do forno. Se conseguir responder certo às perguntas formuladas eles estarão salvos, caso contrário, irão para ... E a platéia de negro gritava:
_Fogo! Fogo! Daniele não entendia nada. Repentinamente, apareceu diante dos seus olhos um enorme painel luminoso cheio de números.
Do outro lado uma estranha plataforma, estreita e logo abaixo, um caldeirão enorme com lavas incandescentes, ela sentiu o calor. Olhou mais uma vez para o painel, o que significava tudo aquilo? Quando olhou novamente para a plataforma, viu todos os seus parentes, dentro de gaiolas. Todos enfileirados à beira do caldeirão. Um calafrio lhe percorreu todo o corpo. Pela primeira vez lembrou-se de Deus.
Tomou um susto quando ouviu a possante voz do apresentador do estranho programa:
_Vamos começar, você sabe como funciona, terá que ir eliminando os números da morte do painel, cada número eliminado corretamente, um deles sairá dali, cada número errado e a gaiola é empurrada para o fogo.
Daniele ainda quis contestar, não quisera participar daquele programa, quem colocara seu nome nele? Não teve tempo, pois ouviu:
_Primeiro número eliminado, a luz ficará verde, assim que mudar para vermelho você deve dizer o número bem alto. Há tempo, porém caso não faça isto, assim que a luz apagar, a pessoa correspondente ao número, desce.
E a platéia de negro vibrou.
Daniele suava muito, não tinha nem idéia de que número eliminar, não entendia nada, estava perplexa diante daquela situação. Seu coração parecia querer sair do peito, de tanto
remorso por não saber como livrar sua família daquela situação terrível. Olhou para as gaiolas e percebeu pelos rostos de todos, aflição, mas também notava um pouco de esperança. Viu sua sobrinha que inocentemente brincava e sorria para ela. Daniele se conscientizou que não havia alternativa: tentaria salvar sua família, nem que para isto tivesse que morrer.
_ Pronto, luz verde!_disse o homem.
A moça por mais que se esforçasse não sabia o que fazer, que números dizer, não tinha nem idéia. Pediu ajuda de Deus. Foi então que viu na platéia alguém que encheu seu coração de esperanças. Era Gedeão, bem vestido, muito sorridente, lhe fazendo com o dedo o sinal de positivo; então, ele tinha esperanças nela, sentiu-se alegre de repente, depois ele lhe fez outro sinal apontando para a platéia de olheiras e mal vestida.
_Meu Deus, entendi, e gritou: número quatro.
_Tem certeza ? _ perguntou o apresentador.
_ Sim, tenho.
E fez-se um pesado silêncio.
O número quatro foi apagado do painel. Todos se voltaram para a plataforma e a criança já não estava mais lá; toda família vibrava dentro das gaiolas, mesmo não sabendo de sua sorte. A platéia feia vaiou e Dani teve certeza que estava no caminho certo.
_ Obrigada, Meu Deus! Mesmo não merecendo, não me abandonou.
A luz verde apareceu.
_Próximo número! _ gritou o homem.
Assim que a luz vermelha apareceu, ela gritou :
_ Número 17!
_ Tem certeza? Posso mandar apagar?
_ Sim, tenho fé em Deus.
O número foi apagado e a mãe de Dani sumiu da plataforma.
Agora ela sabia que salvaria todos.
Olhou novamente para agradecer a Gedeão. Ele lhe deu mais um sorriso e o sinal de positivo.
Os números foram sendo eliminados um a um: 17, 14 , 7, 1 e, por fim, o número 18.
Todos certos. Os parentes de Dani estavam livres. Ela conseguira. Graças a Deus e ao amigo Gedeão.
O apresentador fez mais uma pergunta:
_Vai parar agora? Dani olhou novamente para o amigo e este lhe fez o sinal de sim. Ela sorriu e disse bem alto:
_Vou parar.
_Tem certeza disso? Pois devo avisá- la que até hoje ninguém passou pela segunda chance, você tem que ter certeza que quer parar.
_ Tenho certeza que vou parar, juro por Deus!– disse ela feliz.
_ Consegui, graças a Deus. Obrigada, Senhor!
Pulou da cama, e viu o velho que a olhava assustado com seu único olho. Ela correu para ele abraçando-o carinhosamente.
_ Obrigada, Gedeão! Você ajudou-me a me salvar e a salvar minha família. E se lembrou perfeitamente dos números que eliminara. Pensaram muito e procuraram no alfabeto.
Descobriram o que significavam. Para Dani não precisava mais nada. Só Deus poderia ter lhe dado aquela chance, não a desperdiçaria. Como avisara o apresentador do programa, a segunda chance poderia não existir.
E contou o seu sonho para o velho. Quando terminou amanhecia um lindo dia. Dani se espantou, pois há muito não via beleza em nada. Tomou café com o velho e se despediu prometendo voltar em breve.
Procurou seus pais, que diferentemente das outras vezes quando a filha aparecia só lhes causava tristeza, dessa vez notaram algo diferente. Depois que a moça lhes contou tudo foi a maior felicidade do mundo para todos.
No outro dia foram à casa de Gedeão. A moça com muita tristeza lembrou que ele não estava no jogo, portanto não poderia salvá- lo. Gedeão morreu 11 meses depois, feliz porque levava consigo a certeza que tivera participação muito direta na salvação daquela moça. E que jamais o esqueceriam e seus morangos. E assim foi, pois Daniele nunca mais usou drogas.
E, em um pequeno sítio da periferia da cidade levava muitas mudas de morango que cuidava pessoalmente. Para ali eram encaminhadas jovens que queriam se livrar do vício
terrível. Ouviam a história do velho Gedeão e da moça e ficavam muito emocionados.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009



VULCANO
J. Norinaldo.


Encontrava-me numa estrada desconhecida.
Minhas botas afundavam na lama… o único som audível eram meus passos.
Sentia frio nos pés, apesar das pesadas roupas que usava. O frio parecia penetrar-me até os ossos… Mas prosseguia!
Não sabia onde estava, só sabia que devia continuar andando, não tinha idéia de onde vinha e nem para onde ia.
Na verdade não sabia nem quem era…
À direita havia um rio, não muito largo. Uma densa camada de névoa cobria-o, dando-lhe um ar fantasmagórico.
À esquerda, um verdadeiro paredão de pedras muito húmidas e cobertas de limo. Continuei caminhando.
Em dado momento, a manta que trazia ao pescoço, caiu para frente, peguei numa ponta e a joguei para trás, de modo a que me protegesse do frio intenso que fazia.
Era uma espécie de cachecol muito grosso, feito com lã crua.
Prossegui meu caminho, já não me desviava sequer das poças de lama, era totalmente impossível fazê-lo… sentia os pés gelarem.
Avistei primeiro uma ponte, com dois arcos, que me pareceram à distância serem de pedra, pensei que a cidade não estaria longe. E não estava realmente.
Em pouco tempo, encontrei uma curva na estrada e entrei na aldeia. Já era noite fechada, assim, perambulei por ruas estreitas e escuras, ali não havia lama, as ruas eram calçadas de pedras, como de pedra também eram as construções.
Vi luzes e ouvi muitas vozes em uma espécie de taberna e para lá me dirigi. Entrei e qual não foi minha surpresa quando todos que ali estavam se viraram à minha entrada.
Alguém, um homem muito alto e forte, que usava um estranho chapéu, dirigiu-se a mim, gritando: - Mas vejam só quem está de volta!!
O seu sotaque, assim como sua voz lembravam o ator Paulo Goulart, quando interpreta italianos nas novelas, até o jeito de falar era igual. O nosso Giuseppe tinha voz de tenor.
Veio até mim de braços abertos, foi um longo e emocionado abraço, pelo menos da parte dele…. Eu nada entendia.
Sem dizer uma palavra, assustado e totalmente perdido, pois como disse antes não sabia que lugar era aquele, e nem mesmo quem eu era, vi todos se aproximarem e tentarem me abraçar ao mesmo tempo, enquanto uma alegria que me parecia sincera brotava daqueles olhares.
Atônito eu nada dizia, foi quando o mesmo homem que começara a falar, disse com sua voz de trovão:
-Gente, o que estamos esperando? alguém vá correndo buscar o Victorio agora mesmo! E você homem! - disse virando-se para o taberneiro- Sirva imediatamente vinho ao nosso Giuseppe, pois com o frio que faz lá fora deve estar enregelado.
O homem, este gordo e muito vermelho, apressou-se em cumprir a ordem. Logo me era entregue uma enorme caneca de barro cheia de vinho, serviu a todos e fizemos um brinde, eu sequei a minha caneca e todos fizeram o mesmo.
O vinho era muito bom, senti um calor reconfortante, o frio desaparecera como por encanto.
Pela forma como me tratavam, eu era aparentemente, uma figura muito querida e respeitada por todos.
De repente o mesmo homem que me recepcionara com tanto calor disse: - Paola já sabe da tua volta? Dirigia-se a mim.
Neguei, balançando a cabeça, o que queria dizer mesmo é que não sabia quem era Paola.
-Porca miséria!! - disse parecendo bravo agora. - Você vá correndo avisá-la, traga-a para cá, para também comemorar sua chegada. Vamos homem o que está esperando?
Mais uma caneca de vinho veio parar em minhas mãos, não me fiz de rogado e a emborquei novamente. Tudo aquilo era muito confuso para mim, mas agora depois do vinho eu já não sentia mais medo. Afinal era bem tratado, isto já era algo muito bom. Mas quem seria Paola?
Outros homens entravam na taberna, agora um trazia uma estranha acordeona, estranha pelo menos para mim, era muito pequena, ele usava uma boina também bastante estranha. Era Victório.
Assim que entrou, veio diretamente para mim de braços abertos. Agora eu sabia que estava na Itália. Em seguida começou a tocar seu instrumento, a alegria era contagiante.
Não demorou muito e adentrou a taberna uma bela mulher, mesmo vestida com pesadas roupas de lã, notava-se a beleza do seu corpo. Trazia duas meninas pelas mãos. Assim que me viu, correu e se atirou em meus braços, não tive tempo de perguntar nada, abracei a mulher carinhosamente, não conseguia atinar com nada do que estava me acontecendo.
Depois de um longo e apertado abraço ela disse: - Beijem o papai filhinhas. Ele voltou, Graças a Deus!
Após abraçar e beijar as meninas que também eram lindas ouvi da mulher: - Querido. Vulcano não morreu. Apareceu em casa dois depois, louco de fome. Está lá fora. Vá vê-lo.
Saí, como um verdadeiro robô, para ver Vulcano. Quem seria Vulcano? Ao chegar a porta, um enorme cão negro pulou sobre mim, me lambendo e fazendo uma grande festa.
Aí lembrei de tudo: Me atirara no rio para salvar o meu cão numa noite de tempestade. Lembrei-me das meninas, Carmela e Giovana, minha mulher Paola e aquele homem com voz de tenor era meu sogro. Meu Deus então não morrera!!!
Voltamos ao salão e pedi outra caneca de vinho, agora estava feliz, queria falar, mas ninguém me ouvia, falavam todos ao mesmo tempo gesticulando muito. Peguei a caneca e virei de uma só vez. Quando olhei para as pessoas, comecei ver tudo girando, suas vozes pareciam uma radiola que perde a rotação, de repente vi aquelas pessoas se movendo em câmara lenta, e depois parecia que se desmanchavam.
Fiquei apavorado, pensei que fosse o efeito do vinho em demasia. Fechei os olhos na esperança que aquilo passasse logo. Fiz um tremendo esforço e novamente abri os olhos, foi aí que vi tudo claramente: Eu estava numa cama de hospital, ouvi uma voz feminina dizer: - Doutor!! Doutor!! Ele está voltando, veja!!! Abriu os olhos!
Vi um médico jovem ao meu lado, falavam a minha língua, ouvi-o dizer: - Graças a Deus voltou, chamem o doutor Martins.
Horas depois recebia a visita da minha esposa. Feliz, sorridente, linda.
Como lhe falar de Paola, Carmela e Giovana?? Eu saíra do coma provocado por um desastre de automóvel. Mas o que significava tudo aquilo?
Tempos depois, com o auxilio de um grande artista, que desenhou a aldeia, as roupas que descrevi, o recipiente de vinho e até o instrumento do Victorio, um grande pesquisador italiano me dizia:
- Pelo que temos, Giuseppe viveu no norte da Itália entre 1340 e 1370. Tentou salvar seu cão, este voltou são e salvo, mas nosso herói veio parar no Brasil quase oitocentos anos depois….

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


FAÇAM SEUS JOGOS SENHORES.
J. Norinaldo

Jamais esqueci aquela noite, aquele homem, aquele jogo. Seis homens que mal se conheciam do cassino, sentados em volta de uma mesa redonda, forrada com um pano verde tendo no centro o brasão do cassino. Feições fechadas, não se movia um músculo daqueles rostos sisudos. Eu ganhara uma boa bolada noites atrás, agora não estava ganhando, também não perdia muito. Comecei a observar um dos jogadores, mesmo tentando disfarçar, parecia aflito, seu olhar refletia desespero. Arriscou duas vezes, talvez blefando, e se deu bem. A crupier, uma linda moça morena, alta de cabelos negros, olhos cor de mel, muito bonita e quase perfeita de corpo, digo quase perfeita, por não conhecer a mulher perfeita, devia ter 20 anos.
A moça deu as cartas, orelhei as minhas duas, e vi um par de Ases. Bom jogo, um par na mão é meio caminho e de ases então. Começaram as apostas. O mão abriu o jogo com 100 dólares, o seguinte dobrou, quase no fanal da rodada, alguém colocou 500 sobre a mesa, o ultimo era ele. Não pensou muito e atirou 2.000 dólares sobre o pano verde. Olhei para o lado e vi sua esposa, já os vira saindo do cassino numa madrugada fria, em um velho Ford, andava de um lado para outro também parecendo desesperada. Três dos jogadores jogaram suas cartas sobre a mesa que a bela crupier recolheu com a graça de quem é belo. Ficamos três que pagamos para ver o Flopy. A linda moça virou as três primeiras cartas, e vi: dois Ases e um quatro, portanto eu tinha um poker formado, o mais alto. Era minha vez de apostar. A moça de olhos de puma olhou para mim e perguntou: _Aposta señor? Bati com a mão na mesa, não apostava. O jogador seguinte pegou 10.000,00 dólares e colocou a frente da moça, que rapidamente recolheu e juntou ao poço. Todos pagamos a aposta e a moça virou as últimas duas cartas. Um quatro e um valete. Portanto eu jamais poderia perder aquela parada. Era a vez do apostador ao meu lado, este bateu na mesa passando, para meu desespero, vi aquele homem levar as duas mãos as suas fichas, e empurra-las em direção ao centro da mesa. Meu coração disparou meu vizinho, jogou as cartas na mesa, portanto a parada era entre nós dois. Novamente olhei minhas cartas, o máximo que ele poderia ter seria um fuland, nada mais, estava irremediavelmente perdido. Olhei para ele, que tentou sorrir para mim como a intimidar-me, porém não vi sorriso nenhum, aquilo mais parecia um pranto.
Pedi a Deus que mesmo se tratando de jogo, que me desse uma luz, e ele me atendeu, pois não tive tempo para pensar e joguei minhas cartas na mesa, me levantando e recolhendo as poucas fichas que me restavam. A felicidade que vi naquele rosto antes tão apreensivo, no momento valeu mais que os 50.000,00 dólares repousavam no centro da mesa. Apertou a minha mão, e senti a sua gelada e tremula, correu para abraçar a esposa aos gritos.
Sai dali, peguei meu carro e me recusei a pensar no meu gesto. Dane-se pensei, caso não valha nada, acho que não agi mal. Quem manda ficar colocando Deus em jogo pensei.
Cinco anos depois, me encontrava no Rio de Janeiro e faria uma viagem para Miami, quando já a bordo da aeronave, uma comissária de bordo me chamou a atenção pela beleza. Nossa que olhos, que boca e que corpo. Assim que o avião decolou e se estabilizou, a moça aproximou-se de mim, e como a poltrona ao lado estava vazia sentou-se. Num charmoso espanhol com aquela foz felina disse: _ Te busco a tantos años y ahora te quedas em mis braços. Tomei um susto. Seria louca. _Para donde vas? Ainda meio assustado respondi: Miami. E ali recebi um convite para ser hospede daquela deusa alada, que mesmo sem entender nada, preferia mil vezes abrir a porta e descer ali mesmo a 10 mil pés de altura, que recusar tal convite.
Marília Rocio era a crupier daquela rodada de Poker. Perdi 50.000,00, talvez tenha salvo uma vida e ainda ganhei a mais linda, mais meiga, mais carinhosa, mais tudo que pode ter de bom uma mulher, que hoje é mãe dos nossos filhos.
Claro, ela vira minhas cartas. Assim como, conhecia a situação daquele homem, que na verdade não era um jogador contumaz, apelara para o jogo como único recurso para salvar uma filha das drogas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008


O PÃO DE GENEROSO
J. Norinaldo

Eu já andei muito por este mundo fora, às vezes fico pensando que nada mais me surpreende.
Viajei pelo Sul pelo Norte pelo Nordeste e já presenciei todo tipo de crendice e tradição, às vezes muito estranhas ou exóticas.
Quando fui pela primeira vez ao pantanal em Mato Grosso do Sul, tomei o maior susto quando alguém me perguntou se aceitaria comer um pedaço de sopa, claro que achei se tratar de gozação, não era, lá na semana santa todas as famílias, ou quase todas, fazem uma sopa sólida, mais parecendo um bolo de milho.
Leva, além de farinha de milho, queijo, cebola e mais alguns temperos que para mim foi realmente surpreendente.
Há pouco tempo fiz uma viagem de automóvel pelo nordeste, como não tinha prazo eu parava onde queria e ficava o tempo que achava necessário. Cheguei a uma pequena cidade do estado de Pernambuco, achei o lugar lindo, devia ter uns 15 mil habitantes, fiquei num hotel que apesar de não ter estrela nenhuma, era muito aconchegante e o atendimento muito especial, a comida de primeira, carne de sol a especialidade da casa. Resolvi parar ali por algum tempo. Fiz amizade com o dono e com os empregados, o hotel era uma construção muito comprida e sem nenhuma graça, parecia tudo menos um hotel, mas algo ali me chamava a atenção, eu queria saber o quê.
O nome da cidade é Cachoeira Alta, estranhei, mas depois soube depois que um rio que corta a cidade passa a maior parte do ano seco. Uma das coisas que mais me surpreendeu, foi como havia árvores naquele lugar, e jardins, cada casa por mais pobre que fosse lá estavam algumas roseiras e outras flores.
Andei muito pelas estreitas ruas, apenas algumas calçadas com paralelepípedos, o restante ruas de terra, casas simples, nenhum prédio, como em qualquer lugar, havia casas bonitas, das famílias mais abastadas, a economia do lugar era basicamente agrícola, milho, feijão, mandioca, mamona e algodão.
Tive mais uma surpresa em matéria de tradição, e por isto demorei mais tempo nesta cidade. Certo dia eu me encontrava numa barbearia, folheava uma velha revista aguardando minha vez quando notei que muitas pessoas passavam ali em frente, todos com um grande pão. Tinha dois senhores na minha frente, eu me levantei e fui até a porta, logo mais a frente havia um estabelecimento comercial, eu já passara ali, era uma padaria, uma grande fila se formava na frente, e mais pessoas saiam dali com um pão, era um pão grande mas todos iguais..
Fiquei muito intrigado, olhei mais um pouco, não entendi nada, que significava aquilo?
Por fim chegou minha vez, tive o cuidado de olhar a cadeira do barbeiro, pude perceber que era muito antiga, sentei-me, e assim que ele começou a aparar meu cabelo, eu lhe perguntei:
_Amigo, estive vendo uma fila de pessoas em frente à padaria, todos saem com um pão, o que significa? ou não significa nada?
_O senhor não é daqui, não é mesmo? Perguntou com um sorriso.
_Não, sou do Sul, estou a passeio.
_Pois bem amigo, hoje é o dia do pão de Generoso, para nós é um compromisso sério, pegar um pão hoje, é de graça, todas as padarias dão o pão, sempre neste dia. Era uma quarta feira, dia 10 de Abril, fiz um esforço e não me lembrei se era dia de algum santo. Não lembrei.
_Pão de Generoso? Bem amigo, como lhe disse não sou daqui, mas ficaria muito grato se me dissesse de que se trata.
_É uma história longa amigo, posso até lhe contar, mas se quer realmente saber com riqueza de detalhes, depois desça por esta mesma rua, dobre na primeira esquina a direita e encontrará uma linda casa azul, a que tem o maior jardim na frente, ali encontrará uma senhora que lhe contará tudo com muito prazer.
_Assim que terminou, eu paguei, agradeci e sai, outra coisa que notara nesta pequena cidade, era a maneira carinhosa, hospitaleira dos habitantes. Cheguei a esquina dobrei e logo vi a bela casa azul. Bati palmas, e uma mocinha veio atender.
_Bom dia senhor, em que posso ajuda-lo, disse com seu sotaque, com o qual eu já estava me acostumando, lhe disse o que queria e ela abriu o portão mandando que eu entrasse, sentasse na varanda que ia chamar a senhora.
Logo apareceu uma mulher, devia ter uns 40 anos, era bonita, alta, tinha cabelos negros e longos.
_Bom dia senhor, deseja falar comigo?
_Sim senhora, se não for incômodo, eu gostaria muito de conhecer a história do Pão. O barbeiro me indicou a senhora.
_Um lindo e estranho sorriso surgiu no rosto da mulher.
_O senhor não quer entrar?
_ Bem por mim aqui está muito agradável.
A mulher sentou-se a minha frente e começou a falar:
_Nossa cidade era diferente, a população agia diferente, quase tudo aqui era diferente, até que um dia apareceu Generoso, deixei-a falar a vontade sem interrupção.
_este lugar era conhecido pelas festas, principalmente de Santo Antonio, eram três dias e três noites, se comia, bebia e dançava muito, alegria demais. Nesta última que vou lhe contar então estava maravilhoso, veio circo, parque, teatro de bonecos que aqui chamamos mamolengo, até cinema teve, passou o filme de Sansão e Dalila.
Pois bem continuou ela, quando a festa acabou, as pessoas de fora foram embora, um homem não foi. Foi encontrado caído bêbado atrás da casa do motor. Todos acharam que assim que melhorasse do porre, procuraria seu rumo. Não foi assim, este homem ficou em nossa cidade, não era um homem comum, além de muito alto, branco, olhos verdes, e um homem muito forte, um verdadeiro gigante.
Vou resumir no que puder para não tomar muito seu tempo, pois a história é longa. No começo as pessoas ficaram bem desconfiadas, mas com o passar dos dias foram vendo que aquela criatura só fazia mal a si mesmo, pois bebia muito, ficava bêbado e sentava em algum lugar no chão e ficava conversando algo que ninguém entendia direito.
Como disse que o homem era muito forte, logo arranjou trabalho nos armazéns, o senhor passou pela praça, ali onde hoje é o cartório, era um grande armazém, comprava de tudo, milho, feijão, algodão, depois ensacavam tudo e os caminhões da capital vinham buscar.
Trabalhava por quatro homens.
Havia por trás da praça, um local destinado à venda de animais em dias de feira, havia um grande curral e uma construção toda aberta, ali já vivia um senhor há muito tempo, e o nosso homem também ali se hospedou.
Ninguém sabia nada a respeito dele, nem sequer seu nome, pois este não falava com ninguém a seu respeito, falava muito sozinho quando bêbado, mas como lhe disse não se entendia nada. Além de tudo era um homem muito bonito.
Tudo praticamente começou, quando o homem se encontrava naquela mesma padaria, onde o senhor viu as pessoas pegando o Pão de Generoso.
Eu continuava em silencio prestando toda a atenção do mundo, até agora não entendera nada. Ela prosseguiu:
O homem estava ali para comprar sua aguardente e outras coisas, quando uma menina entrou no local, pediu o que queria e o dono foi até uma espécie de tulha de madeira, um depósito para bolachas, juntou todo farelo que sobrara, colocou em um saco de papel e entregou a criança, esta lhe entregou algumas moedas e já ia saindo.
O homem então perguntou ao vendeiro:
_O senhor vende aquilo para uma criança?
_Claro meu amigo respondeu o outro, se reparar bem isto aqui é uma venda, vendo de tudo.
_Espere um pouco amigo, aquilo é resto, como pode vender até aquilo?
_Ninguém me dá nada moço, caso não esteja gostando, compre o pão e dê a menina, caso contrário tenho mais o que fazer.
O homem chamou a criança e perguntou:
- Quantas pessoas tem em sua casa?
__Seis respondeu a menina, que tinha 7 anos.
_ O homem mandou que o dono da mercearia lhe desse seis pães, depois perguntou quanto custava, pagou o correspondente a uma semana, disse a menina para vir pegar os pães todos os dias, já estavam pagos, mandou que o homem devolvesse suas moedas e que lhe cobrasse pelo farelo que ela ia levando.
Pegou suas compras e se foi, dias depois se via para que ele queria aquele farelo, que passou a pegar quase todos os dias, espalhava pelo chão na sua pobre moradia, e logo havia revoadas de pássaros atraídos pela gostosa refeição.
A menina chegou em casa com a grande quantidade de pão, e seus pais quiseram saber onde arranjara dinheiro, ela lhes contou o puxão de orelhas que o Bêbado grande dera no homem da padaria, e foi repreendida por tratar assim a quem a ajudara, a menina ouviu seu pai conversando com a esposa, se referindo ao bêbado como um homem Generoso, e a menina a partir desse dia só chamava o homem de “Seu Generoso”, no começo ele ria muito, pois era só que sabia fazer, o bem e rir muito.
Nascia para nós o Generoso, que viria com o tempo mudar tudo, ou quase tudo em nossa cidade. Duas semanas depois do ocorrido que acabei de lhe contar, o dono da padaria recebia uma quantia em dinheiro para dar pão a várias famílias que não podiam compra-lo.
Generoso ganhava bem carregando vários caminhões por dia, usava todo dinheiro que ganhava, para ajudar as pessoas necessitadas, tirava apenas para seu sustento e sua bebida.
Acabara-se toda desconfiança naquele homem, todos reconheciam nele apenas generosidade, depois começou a ir à escola.. na hora do recreio havia um senhor com uma máquina de fazer algodão doce, muitas crianças não tinham dinheiro para comprar, passaram a receber do Generoso.
Ele chegava, sempre sóbrio nestas ocasiões, perguntava quem queria algodão doce, e claro todos queriam, ele então dizia:
- Bem, se nenhum menino aqui, atirou pedra em passarinho, lagartixa ou outro animal qualquer, não faltou com o respeito com os mais velhos e prometer que nunca vai beber pinga, eu pago pra todos.
- Não, gritavam todos.
- Não senhor, corrigia a professora, e assim Generoso ficou conhecido das crianças, que passaram a amar os animais e as plantas. O senhor notou a quantidade de árvores que tem em nossa cidade, pois é, tudo obra do Generoso, que pegava a criançada e juntos plantaram todos essas mudas, e a meninada cuidava de tudo.
Outra coisa, depois do Pão, Generoso começou a usar o dinheiro do seu trabalho também com remédios para as pessoas pobres, suas únicas exigências: era que não deixassem os meninos, atirar pedras em passarinho, lagartixas ou qualquer outro animal, desrespeitar os mais velhos, e que fossem ensinado o mal que o vício fazia. Às vezes as crianças intrigadas perguntavam: seu Generoso, passarinhos tudo bem, mas porque lagartixas também? Ele então se sentava e explicava: _ Porque todas as criaturas são filhas de Deus, como nós, não devemos maltratar nenhuma, nem mesmo as lagartixas.
Ninguém aqui cria pássaro em gaiola, é uma coisa gravíssima para nós, ensinamento dele, as crianças daquela época transmitiram para as de hoje e graças a Deus conseguimos manter a tradição.
Generoso ficou conosco por mais nove anos, um triste dia 10 de abril, o encontraram morto, foi uma comoção geral no lugar. Mas a partir daí nada mais foi como era antes. Há muitos anos não há um crime grave neste lugar. O dono da padaria depois que Generoso se foi, continuou dando o pão de graça as pessoas pobres, dizia que Generoso deixara pago. Não era verdade, ele mudara ao ver o comportamento daquele homem.Mas tinha vergonha de dizer
Hoje é comum a gente ver alguém fazendo compras, e quando o troco é apenas algumas moedas, este alguém dizer: pode deixar, fica para o Pão.
Seguindo o exemplo do comerciante avarento, aquele que vendia tudo, não dava nada, hoje temos a farmácia comunitária, onde quem tem dinheiro compra, quem não tem leva de graça, temos o Lar de Generoso, que funciona no local onde antes era o curral, e serviu de moradia para o Generoso hoje é um albergue para abrigar aqueles que não têm onde ficar. Em cada casa, por mais pobre que seja, há um pequeno jardim e por todas as árvores, o senhor pode ver casinhas de madeira, onde os canários, pardais e todos tipos de aves fazem morada.
Como hoje é dia 10 de abril, todos moradores da cidade pegam um grande pão na mesma padaria, onde a primeira menina recebeu do Generoso, todas as outras padarias também fazem o mesmo pão grande, como grande era o coração daquele bêbado, e mandam para esta da praça. Ali eu vou bem cedinho e sou a primeira a pegar o Pão de Generoso, e isto já acontece há 30 anos.
_E porque a senhora é primeira a pegar o Pão? porque chega mais cedo?
Não, amigo, porque fui a primeira a receber essa ajuda, era eu que comprava o farelo de bolachas, lembra?.
Caso aceite, pode pegar lá o seu pão, não é obrigado, é claro, e venha tomar um café comigo, podemos prosear mais.
_Com muito prazer, respondi, irei agora mesmo.
Fui até a padaria, e até um pouco encabulado entrei, uma jovem se aproximou com um sorriso, e perguntou, deseja algo senhor?
_Sim, o Pão de Generoso, achei estranho o que estava dizendo.
A moça disse: _ Sim claro, um momento, por favor, afastou-se voltando em seguida, com o enorme Pão embrulhado. Agradeci e sai.
Enquanto me encaminhava para a casa da senhora que depois me disse se chamar Maria do Socorro, sai pensando: Tenho muito a aprender ainda.
Fiquei nessa cidade por mais alguns dias, quando resolvi ir embora tinha certeza que também não era o mesmo de quando cheguei. Já na saída da cidade um senhor já de idade, com mais três pessoas que presumi ser mulher e filhas, me fez sinal e eu parei.
_Bom dia, moço, o senhor vai para onde perguntou. E eu lhe respondi: Isto não importa amigo, para onde vai o senhor? Abri o porta malas e disse: Coloque ai sua bagagem que os levarei. Este respondeu: Carece não moço, o senhor deve ir para a Capital, nós vamos pegar uma estrada de chão logo ai a frente. Conseguiremos outra carona.
Ora, respondi, não conheceu o Generoso?
_Claro, eu convivi com ele, mas o senhor não é daqui, não pode tê-lo conhecido. Generoso morreu faz muito moço.
_Eu sei! Mas sua generosidade não poderá morrer nunca. Vamos, homem entre.
Como disse. Jamais serei o mesmo depois de conhecer essa história.


FANTASMINHA ENGRAÇADO
J. Norinaldo.


Em minha eterna busca pôr fantasmas de sótãos, esquisitice que adquiri ao ler o primeiro livro de contos de Edgar Alan Poe, quando ainda muito jovem. Vi-me há muito pouco tempo numa situação vexatória e desconfortável.
Conheci recentemente um escritor, poeta e jornalista muito conhecido nos meios literários da minha cidade, fizemos amizade muito rapidamente e, hoje além de amigo sou um grande admirador do mesmo.
Este meu novo amigo mora em uma mansão muito antiga. Apesar do luxo, o lugar tem uma aparência fantasmagórica, desde o primeiro dia em que ali estive tive essa sensação. Nos fundos do quintal que é enorme existe uma construção de dois pisos, uma espécie de quiosque.
Mas vamos ao fato que pretendo contar. Muito bem, esse pequeno quiosque tem também um pequeno sótão, muito pequeno mesmo, eu já estive algumas vezes na casa do meu amigo e sempre tive curiosidade de olhar o que tem lá em cima, porém, ainda não tive oportunidade de fazer isto sem chamar a atenção e Ter que dar explicações sobre a minha mania. Até que dias atrás eu telefonei avisando de mais uma visita, e quando cheguei para minha surpresa, meu amigo havia se ausentado por motivos alheios à sua vontade, deixara um recado para que eu fosse lá para seu canto e o esperasse. Não demoraria.
Eu pretendia voltar depois, disse isto ao seu mensageiro, mas este disse que meu amigo lhe recomendara que não me deixasse ir embora, que não demoraria que precisava falar comigo. Não tive outra alternativa, entrei e fui direto ao quiosque, quando lá cheguei, notei uma escada colocada na entrada do sótão que fica na frente da pequena construção, na hora senti algo estranho, sabia que não era correto subir a escada e espionar o que tinha lá em cima. Contive meu primeiro impulso… por pouco tempo, porém, achando que éramos amigos e quando chegasse eu lhe diria, subi alguns degraus da escada até poder olhar pela pequena abertura. Que decepção, nada além de alguns pedaços de isopor, e uma mesa velha.
Já me preparava para descer quando para meu espanto ouvi uma voz dizer:
_Olá!
minha primeira iniciativa foi olhar para baixo, pensando ter sido pego em flagrante espionando o sótão. Não vi ninguém, então eu mesmo perguntei sem dirigir a ninguém à pergunta: _ Quem disse olá?
_Eu disse olá! Agora eu sabia que a voz vinha de dentro do sótão, tomei um susto tão grande que pôr pouco não despenco da escada. _ Eu quem? Perguntei com voz tremula de medo.
Olhei para a parte mais clara e o que vi me deixou pasmo, um rato, parecendo ter uma tênue luz a sua volta, olhando para mim disse:
_Eu disse olá, e digo olá novamente, olá.
No mesmo instante me lembrei de algo que lera recentemente sobre esquizofrenia e pensei meu Deus, não pode ser isto não tem cura. Mas enfrentei a realidade perguntando:
_ Quem é você?
_ Um fantasma!
_ Fantasma de um rato? E fala?
_não Pedro Bó, sou um fantasma de uma girafa e relincho, não está ouvindo?
Achei engraçada a irritação do rato, e perguntei:
Posso saber por que é tão irritado?
_ Comigo burrice tem tolerância zero, foi justamente por burrice que hoje sou um fantasma, entende agora?
Apesar do medo que sentia, não do fantasma, mas sim de ter ficado louco. Prossegui o dialogo:
_ Muito bem, e o que quer de mim?
_ Eu nada, não te procurei, foi você que veio até aqui, eu não te chamei. Mas já que está aqui, vamos aproveitar e conversar um pouco, me sinto muito só nesse lugar.
_Tudo bem, respondi sobre o que quer conversar?
_ Você é visita, escolha o tema, para mim tudo bem.
_ Está bem, me conte então como virou fantasma.
_ Bem é uma longa história, não quer entrar e sentar-se?
_ Não, estou bem aqui.
_ Tudo começou com um sonho, aliás, todo rato tem dois grandes sonhos, uma fábrica de queijos e conhecer o mais famoso rato do mundo. O Mickey Mouse. Eu parti para a segunda opção, consegui uma passagem de navio e embarquei em busca do meu sonho.
_Como conseguiu a passagem? Comprou? Perguntei espantado.
_ Claro que não comprei você me parece meio retardado, consegui escalando um grosso cabo que prende o navio ao cais, e agora vê se não me interrompe mais.
A viagem foi maravilhosa, comida a vontade, consegui um camarote com uma bela visão, apesar de ter enjoado um pouco nos primeiros dias não podia me queixar. Foram muitos dias de mar, até que aportamos, desembarquei sem muito problema, e foi ai que começaram as dificuldades. Primeiro eu notei que as pessoas naquele país eram todas iguais, no começo pensei que fosse o efeito da primeira viagem a bordo de um grande navio, mas não era. Na minha ânsia de embarcar para Orlando na Flórida, eu esquecera de verificar em que navio entrara me dei mal e fui parar na China.
Para encurtar o papo, não entendia uma vírgula do que falavam ali e de repente me vi totalmente perdido. Encontrei alguns ratos locais, mas como disse não nos entendíamos, de repente uma grande correria, eu mesmo sem saber por que corriam não fiquei para averiguar. Enquanto corria pensava na falta do passaporte. Até que uma rede me caçou, ali comem ratos grandes, eu engordara muito durante a viagem, me tornei uma presa fácil. De repente minha vida passou rapidamente diante dos meus olhos como num filme e zaz, eu estava do outro lado. Era um fantasma.
_ E o que me conta da vida de fantasma? Perguntei agora bem interessado e deslumbrado com o estranho diálogo.
_ Tem suas vantagens, mas também muitas desvantagens. Vantagens, você entra onde quer e a hora que quer sem ser molestado. Desvantagem entra em uma fábrica de queijos e ali não vê nenhuma vantagem, pois fantasmas não comem. Bem e foi depois de virar fantasma que tive a chance de realizar meu sonho, ver de perto o Mickey. Minha decepção foi tão grande que só não morri porque não poderia morrer novamente.
_ Pôr que se decepcionou tanto?
_ Porque descobri que o tal Mickey, não passa de uma menina debaixo de uma fantasia de plástico, já pensou nisso? E é justamente pôr isto que detesto gente burra como eu fui.
_Agora entendo. Mas decerto tem outras vantagens, disse eu, pôr exemplo: Entrar no quarto de uma linda garota e vê-la trocar de roupa vai dizer que não é fascinante?
_ Eu não me enganei, você é realmente é piroca das idéias, o que sentiria ao ver uma rata pelada? Vamos me responda!
_ Ora, nada, talvez sentisse asco.
_ Pois esse seria meu sentimento diante de uma mulher nua. Vamos mudar de assunto, você é amigo desse cara ai embaixo, não é?
_ Claro que sou, respondi chateado pela interrupção do papo, estava ficando gostoso, mas esse fantasminha é bem enfaroso e metido pensei. Pôr que quer saber, respondi rispidamente.
_ Quero que me faça um favor, diga pra esse cara parar de tocar esse violão dele e cantar com essa voz de galinha choca, não é pôr ser dono do sótão que tem o direito de incomodar os vizinhos, diga tudo isto par ele.
_ Ora eu não posso fazer isto, respondi.
_ E porque não? Qual é o problema?
_ São muitos os problemas, primeiro porque não concordo com você, pôr acaso não viu a quantidade de troféus que ele acumula lá embaixo? Foram todos ganhos em festivais, ela canta e toca divinamente, um verdadeiro virtuose. E para fazer isto, eu vou ter que contar essa nossa conversa, e segundo ele vai achar que inventei tudo isto, e sou eu que acho que ele não toca nada e ainda tem a voz de galinha choca.
_ É, acho que o subestimei, não é tão burro assim..
. E com certeza você nunca escutou o rato italiano Vincenzo Provolone cantar, para dizer que seu amigo canta bem, ora faça-me o favor. A conversa está boa, mas galinha choca está chegando. Ouvi o barulho do portão e desci rapidamente sentado-me e pegando um livro que fingi ler, quando meu amigo entrou. Na minha pressa nem notei que o livro estava de cabeça para baixo.
_ Oi, demorei muito? sinto te-lo feito esperar. Quando vi a maneira como meu amigo me olhava, mesmo sem que ele perguntasse nada, eu gritei:
_ EU NÃO VI NADA. Juro que não vi. Ouvi uma tremenda gargalhada lá em cima.